Ser (ou não ser) feliz, eis a questão

DESDE OS PRIMÓRDIOS, A FELICIDADE TEM SIDO
UMA DAS QUESTÕES CRUCIAIS DA HUMANIDADE.
O FILÓSOFO SÊNECA, NOS PRIMEIROS ANOS APÓS CRISTO,
JÁ REFLETIA SOBRE AS RAZÕES DA ANGÚSTIA E DAS
FORMAS DE BUSCAR A SERENIDADE E O EQUILÍBRIO


POR DAVI DE SOUSA BARBOSA*
 E SANDRA OLADES MARTINS VENTURELLI**

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A grande questão humana ainda é a felicidade. É possível encontrar a felicidade ou ser feliz é apenas uma ilusão? Conseguimos proceder com equilíbrio e harmonia quando existem diversas causas da infelicidade, como a dor e o sofrimento? Em Roma, o filósofo Sêneca já refletia sobre os infortúnios de nossa existência e os associava à crise e valores morais e ao conflito gerado por uma civilização que permita os excessos no campo do prazer e do exercício do poder.

Lucio Aneu Sêneca nasceu em Córdoba (Espanha) por volta do ano 4 a.C e morreu em Roma (Itália) no ano 65 d.C. Sua filosofia mergulha na doutrina estóica – fundada por Cleanto, Crispo e principalmente Zenão de Cit no final da civilização helênica – traz forte reflexão acerca da sociedade de sua época, que sofria constantes transformações políticas e sociais. A instabilidade política afetou muito a vida de Sêneca. Ainda que tenha sido um sábio romano, sofreu diversas calúnias e foi exilado em Córsega pelo Imperador Cláudio César após uma perseguição política. Quando retornou à Roma, tornou-se professor e depois conselheiro do Imperador Nero, que desde cedo mostrava os sinais de uma mente perturbada. Abandonou a carreira política em 62 d.C., três anos depois, Nero o condena ao suicídio; aceitou a morte injusta, colocando em prática o princípio estóico da ataraxia (impertubalidade).

O pensamento de Sêneca tem relevância não apenas para o homem do seu tempo, mas também para o homem contemporâneo que necessitava de uma reflexão maior acerca de sua vida e de suas ocupações. Em resposta a uma correspondência recebida de seu amigo Sereno, um epicurista que buscava conselhos acerca de como bem viver e de modo a moderar seus impulsos, Sêneca o responde criando uma obra de extrema beleza intitulada Da Tranquilidade da Alma. A atualidade de tal obra permite o diálogo com o homem contemporâneo, que precisa encontrar-se consigo mesmo e reconhecer os valores da alma, como a tranquilidade e a paz.

FATORES DE INTRANQUILIDADE

Para Sêneca são inúmeras as variedades de males que podem tirar a tranquilidade e a paz da alma – os valores superficiais, o desassossego, a ira -, sendo que todas estas inquietações levam ao mesmo resultado, o descontentamento consigo mesmo. O homem sofre não por ter desejado o mal, mas por perceber que este mal não o levou a lugar algum; insensatos, procuram se ocupar de desejos vãos que não os levam a outro lugar senão à infelicidade. O ponto que Sêneca tenta mostrar para Sereno é que é preciso fazer a alma sorrir para si mesma, livrando-se de qualquer instabilidade que pode ser causada pelas exigências da sociedade ou da política.

O trabalho excessivo com fim de manter a moda e o padrão de vida imposto pela sociedade contemporânea faz do homem uma máquina, assim, quanto mais se trabalha para ganhar dinheiro, mais falsas necessidades vão surgindo. Aqui reside um problema para o homem produtivo: o desejo de alcançar padrões de vida mais elevados o lança num mar de ambições irrealizáveis que o levará ao trabalho compulsivo. Possuir uma desmedida paixão pelo supérfluo e colocar sua felicidade em algo que está externo à sua alma somente multiplica no indivíduo uma série de preocupações desnecessárias.

O trabalho é importante e edifica o homem na medida em que ele não se torna escravo de seu próprio ofício. Desejar coisas boas da vida, como o dinheiro, a saúde, ou outros bens é permitido, os prazeres podem ser acessórios para a alma e para felicidade, só não podem ser causa de sofrimento quando se não obtém. A maioria das pessoas parece desperdiçar os seus dias em trabalhos exaustivos procurando acumular bens para assim manter sua vida conforme a moda e os desejos supérfluos que a própria sociedade impõe; tal comportamento é que impede a tranquilidade e harmonia da alma. A alma equilibrada sabe o justo valor das coisas do mundo.

São vendidas marcas que dizem trazer um prazer duradouro e uma felicidade sem fim, quando na verdade trata-se de um mercado voraz que nos engana, promete até mesmo uma juventude eterna, transformando todos em figura externa padronizada. Sêneca nos adverte que o luxo e a riqueza trazem preocupações desnecessárias ao homem e atormenta: “Aprendemos a andar com as nossas próprias pernas, a regular nosso vestuário e nossa alimentação, não sobre a moda do dia, mas sobre o exemplo dos antigos. Aprendemos a cultivar em nós a sobriedade e a moderar nosso amor ao fausto; a reprimir nossa vaidade, a dominar nossas cóleras a considerar a pobreza com um olhar calmo, a considerar a frugalidade, apesar de todos aqueles que acharão aviltante satisfazer tão modestamente e seus desejos naturais, a não ter nas mãos, por assim dizer, as ambições  desenfreadas de uma alma sempre inclinada para o dia seguinte e a esperar a riqueza menos da sorte do que de nós mesmos”. (Sêneca, 1973, p.215).

Algumas formas de vida podem chegar ao extremo de querer possuir o outro como um bem capaz de trazer felicidade, assim, o outro deixa de ser o desdobramento do eu e se torna um mero objeto que se deve sujeitar aos desejos e prazeres individuais. Ou seja, o prazer da gula ou da luxúria não está ligado à felicidade, trata-se de um prazer momentâneo cuja realização acaba na frustração consigo mesmo e com a sociedade, pois o individuo nem sempre percebe que o amor, o dinheiro e a saúde não são fórmulas para a felicidade.

O filósofo também reflete sobre um dos grandes males do homem contemporâneo: a ansiedade. O irrequieto, diria Sêneca, interioriza as próprias pulsões negativas. Devemos considerar o tempo presente como a verdadeira dádiva e não perdê-lo por ansiar demais o tempo futuro.

Na verdade, o tempo presente é a única oportunidade de ser feliz. A felicidade é fruto do estado de espírito, não é a dor que conduz o individuo à felicidade, tampouco é o prazer que o conduz a felicidade. Tanto o medo quanto o desejo podem ser anulados pela razão. A felicidade é o domínio de si mesmo por meio da razão.

Outra lição de Sêneca refere-se à insatisfação do homem. Este se sente infeliz por não saber se portar perante os infortúnios da vida, a indecisão também o aflige, nada lhe pode ser tão intolerável ou insuportável. Sobre isto o estóico assegura: “Nenhum destino é tão insuportável que uma alma razoável não encontre qualquer coisa para o seu consolo” (Da Tranqüilidade da Alma, p.216). Todos estão submetidos aos mesmos ferros de escravidão na vida terrena, todos estão suscetíveis às doenças e à morte, e não será a riqueza que livrará o homem de qualquer mal, pois se aquele que é pobre tem os seus males, estes não são mais atordoantes do que aqueles que possuem vasta riqueza.

O estóico Sêneca escreve ao homem que está perdido em vícios e não consegue perceber a efemeridade de sua vida, tampouco o que acontece à sua volta; ele é como cego tendo olhos e visão, pois está submetido ao puro hábito daquilo que lhe é imposto como padrão de belo e de felicidade. Alguns podem ter visão, mas não submetem sua visão à razão, por isso permanecem cegos e escravos de seus hábitos viciosos. As próprias angústias da nossa existência podem despertar o desejo da morte. Mas Sêneca desaconselha o suicídio, uma vez que a razão individual pode vencer os obstáculos e guiar o homem à sua própria natureza, evitando os excessos e cultivando aptidões como o cuidado e a serenidade.

 A RAZÃO COMO DEFESA

Ainda que o futuro traga os maiores infortúnios, o homem que usa a razão não será pego de surpresa, este é o verdadeiro homem precavido: “Para quem está preparado e a esperar, a violência de todas as desgraças é abrandada; e somente acham seus golpes terríveis os que julgavam em segurança e que tinham diante de si senão perspectivas felizes” (Da Tranquilidade da Alma, p. 217). A infelicidade para os estóicos vem da não aceitação dos eventos em meio ao caos que a natureza nos obriga a viver, por que então nos angustiamos com o mal? Se nos angustiamos é porque ainda não aprendemos a usar devidamente a razão e a observar os fatos que estão a todo o momento se desdobramento em nosso entorno.

Como bem orienta Sêneca, na condição humana e natural tem que haver a relação com a morte. Aquele que vive com medo da morte pode morrer vítima de seu próprio medo, pois se deixa levar por uma vida dada não à razão, mas a ignorância que lhe parece dar felicidade e conforto perante o medo de não conseguir dar à sua existência todo o sentido que ela merece. Se o homem de hoje não vive o presente por estar preso ao futuro, seus planos estarão ligados a projetos e expectativas e o não realizá-las será frustrante. Aquele que não sabe viver também não saberá morrer e será cravado e transpassado pela dor da procura de sentido de sua existência.

Não seria mais fácil aceitar que todo homem está submetido a esse fim e dele tomar o devido fruto benigno? Lembrando que viver é uma oportunidade de felicidade única e não oportunidade de vícios e escravidão que o faz perder o sentido verdadeiro do viver, lhe ferindo os olhos, arrancando o coração e lhe tirando a razão, que é aquilo que o iguala entre todos, mas também é o que o diferencia. A morte não apraz ou condena à angústia aquele que sabe bem viver, pois ele vivendo o agora com intensidade e ligado ao futuro com cautela, no seu último dia não se arrependerá do que não fez, antes se alegrará por tudo o que lhe foi permitido fazer e por tudo o que viu.

O estilo de vida contemporâneo, principalmente nas grandes cidades, subtrai o tempo de repouso e de reflexão para substituí-lo por entretenimentos que impedem a serenidade do espírito e o seu engrandecimento. Para Sêneca, o objetivo de uma vida frenética é esquecer de si mesmo, por isso a necessidade de procurar a paz e o silêncio, como um retirar-se para encontrar-se consigo mesmo: “É preciso governar nosso espírito e conceder-lhe de tempos em tempos um descanso que fará sobre ele o efeito restaurador”. Para manter a saúde do corpo e da mente importa que haja a alternância entre trabalho e descanso, não existe outra forma de fazer isso que não seja no silêncio e na contemplação da natureza, que pode ensinar ao homem o equilíbrio. Escreve Sêneca em Da tranquilidade da Alma: “É preciso fequentemente recolhermo-nos em nós mesmos, pois a relação com pessoas diferentes demais de nós perturba o nosso equilíbrio, desperta nossas paixões, irrita nossas restantes fraquezas em nossas chagas ainda não completamente curadas. Misturemos, portanto, as duas coisas: alternemos a solidão e esta nos reconduzirá novamente a nós mesmos; elas serão antídotas, uma à outra: a solidão curando nosso horror à multidão, e a multidão curando nossa aversão à solidão”.

O homem é um ser social, portanto, incapaz de viver isoladamente. Contudo, o fato de estar entrelaçado com a sociedade em que vive não lhe retira a identidade única dentro de um universo de milhares de pessoas. Assim, deve-se conciliar socialização e busca interior. Os meios inadequados de se buscar a felicidade, como a opinião da maioria, a sua aceitação no mundo, dentre outros, acabam sendo obstáculos para a sua felicidade. Só a razão sabe o que é melhor para o indivíduo, ela conhece o interior, por isso a felicidade está em si mesmo e não no mundo exterior. Somente a razão faz o homem conhecer a si mesmo.

A maior advertência para os que agora vivem talvez seja a de perseverar no bem, e de querê-lo a si e aos demais. Quando o homem está bem consigo, ele é capaz de conviver bem com o mundo, quanto mais elevada a alma mais exaltado na virtude o homem estará. Bem julgando as coisas do mundo, o homem evita o sofrimento e as decepções do destino. Para Sêneca o sofrimento pode ser evitado para aquele que segue o impulso vital interno. Os insensatos e aqueles que se deixam levar pelos apelos de uma sociedade consumista e viciosa são os que têm a ilusão da verdadeira felicidade, mas logo perceberão que caem no vazio, pois não existe aqui ou ali sustentação para a vida ilusória que levam.

 

 

*Davi de Sousa Barbosa é graduado em Filosofia
pela Faculdade Católica de Uberlândia
** Sandra Olades Martins Venturelli é mestra em
Filosofia e professora de Filosofia da
Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
e da Faculdade Católica de Uberlândia.

Texto publicado na Revista Conhecimento Prático/Filosofia
número 40, Editora Escala. Janeiro/2013

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