Camaradagem versus Amizade

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A camaradagem não é um vínculo quantificável, uma relação mensurável, uma razão entre companheiros. Não é uma mera conexão afetiva, como a amizade, senão coincidência espiritual, identidade de ideais que se realizam simultaneamente. A camaradagem é determinada por instantes absolutos: o tempo e o espaço do feito, mas carece de dimensão temporal extensiva, a saber, da camaradagem não admite categoria de duração, é inconcebível um Camarada permanente, como um amigo. A camaradagem produz Camaradas do ato, da circunstância coincidente, implica o encontro de dois ou vários, num mesmo instante, com um ideal comum que se concretiza. A amizade, pelo contrário, é temporalmente extensa e espacialmente limitada e abarcante; consiste em uma grande conexão sentimental, quase mensurável, que une as pessoas com independência do fato em que participam. A amizade é independente de toda norma ética porque brota do coração, como toda relação afetiva. Na camaradagem, pelo contrário, sempre está presente a Honra. Exige-se não questionar a conduta moral de um amigo; é obrigação, em compensação, observar a atitude ética de um Camarada. Pode-se trair a pátria com a ajuda de um amigo. Mas somente é possível morrer pela pátria com a ajuda de um Camarada.

Da oposição entre amizade afetiva e camaradagem espiritual, surge, com clareza, porque o traidor consegue estender sua traição no tempo, “para sempre”, analogamente à amizade, e porque o herói deve demonstrar seu valor no ato de um instante, instante que a Honra e a ética da humildade, obrigam a esquecer posteriormente: esse instante do herói, que leva implícito todo valor no ato de sua ocorrência, é a instância absoluta dos Camaradas, a coincidência perfeita dos que vão lutar a favor do mesmo ideal. Porque, e o esclarecimento é evidente, o instante do herói é um tempo próprio de Guerreiros; ou seja, de Camaradas.

Em uma trincheira estão refugiados um chefe e dez soldados. Logo cai dentro uma mortífera granada. Um soldado se joga sobre ela e amortece a explosão com seu corpo: morreu, mas salvou a todos os demais; é um herói. Há que se advertir, nesse exemplo, que o herói, em sua instância absoluta, é o líder carismático do grupo. Observemos bem: trata-se de um exército profissional, existem hierarquias e graus militares, superiores e subordinados, chefes e soldados. Porém, essa organização exterior, essa ordem superficial, não conta frente à Morte imponderável; as forças internas da ordem humana são impotentes para se opor à potência dissolvente da Morte. Ao cair a granada na trincheira, somente são reais a Morte e os homens que vão morrer. Nesse instante de terror não há superiores e subordinados, chefes e soldados, mas homens que vão morrer. Mas alguém decide opor-lhe o corpo à Morte. Pensa num instante e decide deter a Morte, não a deixará passar além de si. Não é um suicídio: é um ato de entrega da própria vida em favor de um ideal. “Morro para que triunfem eles”.

Primeiro ato: Cai a granada na trincheira e a granada e a Morte: frente a ela, um grupo de homens irá morrer.

Segundo ato: Um homem se levanta de sua própria humanidade e decide “morrer ele e salvar a eles”, “para que triunfem eles”. E quem assim obra não é nem chefe nem soldado, pois o valor não requer hierarquias, mas o heroísmo.

Eis aqui um milagre: um soldado se apodera da instância absoluta e deixa de ser soldado para converter-se em herói. E já não há chefes nem soldados, nem sequer homens que vão morrer, senão o herói e seus Camaradas.

Seus companheiros, chefe e soldados, são os Camaradas que coincidem junto a ele no ato da Morte. Mas, sobre todos os atos, está o objetivo da guerra, o ideal do guerreiro, a pátria ou talvez uma meta nacional. A realização do ideal necessita, pois, o feito da vida. A Morte, nesse caso, é o Inimigo. Daí que, frear a Morte, evitar que quite a vida dos que lutam pelo ideal, seja um ato de serviço ao ideal, fora de todo regulamento. Se não fosse assim, o ato do herói seria um mero suicídio e os sobreviventes salvariam uma vida sem sentido. Mas a vida resgatada da Morte tem um sentido: o triunfo do ideal. O herói se lança sobre a granada, mas lhes diz claramente a todos: “morro para que vós triunfais”, ou seja, “morro assim para que triunfemos todos”, “morro assim para que triunfe o ideal”, “Triunfai!”. Não os diz “Vos presenteio com a vida”.

E como lhes disse? Carismaticamente. Todos o escutam com o Sangue; por isso não sentem que devem a vida ao herói, mas que devem triunfar, derrotar o Inimigo, cumprir com sua missão. Então há ordem? Sim, mas não a ordem artificial da organização militar, mas a formalidade da Mística no instante de arrojo; o herói é o líder carismático de seus Camaradas e seu último pensamento é uma ordem que todos acatam. Uma ordem dada fora da hierarquia militar, desenganchada da cadeia de comandos, mas de maior força que qualquer disposição exterior porque foi emitida dentro de cada um, simultaneamente com a explosão da Morte, sob a forma Mística do ideal, os Camaradas receberam, num instante único, a ordem do líder carismático, que o é porque nessa instância absoluta os supera a todos com o valor heróico de seu ato.

Regressando à comparação anterior, agora se pode apreciar melhor a diferença entre a amizade e a camaradagem: os amigos podem dar-nos muito, inclusive tudo o que tem; talvez até a vida por nós. Mas somente Camaradas nos dão algo maior que suas vidas, inclusive maior que nossas próprias vidas, isto é, o ideal. Somente um herói, ou um Camarada acreditará em nós como heróis ou Camaradas e nos ordenará seguir ao ideal, nos assinalará o ideal, nos revelará o ideal, nos aproximará do ideal.

Ser amigo é estar ligado a um coração alheio. Ser Camarada é estar comprometido com um ideal; significa assumir, no momento oportuno, a instância absoluta do herói, se fosse necessário, liderar carismaticamente aos Camaradas, ordenar a marcha ao ideal, morrer pelo ideal.

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